terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Eu. Nós. Eu.


"I think that the worst part of it all wasn't losing him. It was losing me" - Taylor Swift, I knew you were trouble

Certa vez meu professor de português do colégio pediu que cada um escrevesse uma redação sobre o tema "quem sou eu?". Minhas amigas demoraram dias para conseguir escrever mais que cinco linhas. Eu não. Em 20 minutos escrevi duas páginas. Naquele momento eu percebi que eu sabia exatamente quem eu era - e me senti orgulhosa disso. Eu era jovem, mas já sabia que o auto-conhecimento era uma dádiva de poucos. Eu conhecia meu corpo, meus gostos, meus medos, meus desejos. Conhecia minhas ideologias e crenças, meus sentimentos, minha personalidade. Até que, um dia, tudo mudou. 

Me vi confusa; olhava para as coisas que sabia sobre mim mesma e aquilo não encaixava mais. Eu não era mais daquele jeito. Tinha pensamentos novos, gostos novos, sentimentos novos. Foi então que descobri que essa jornada de auto-conhecimento é infinita, afinal, o ser humano muda a cada segundo que passa. E o acúmulo de segundos nos leva a metamorfoses, onde olhamos pra trás e não nos reconhecemos mais ali, naquele corpo, naquelas lembranças. Tudo bem, aceitei isso e iniciei uma nova jornada, para descobrir esse novo eu. Mas ai a vida me surpreendeu com você.

Quando nos conhecemos, naquela noite de sábado, minha vida estava de cabeça para baixo. E você colocou ela em pé de novo. Eu abri as portas e deixei você entrar em mim - não nesse sentido que você está pensando! Bom, assim também. Mas me refiro ao momento que você me olhou nos olhos e eu permiti que você enxergasse minha alma. Aquele dia em que conversamos por telefone a madrugada inteira e eu te mostrei quem eu era. Te abri meu coração; e você entrou. 

Aos poucos minha vida foi voltando aos eixos, mas continuei com a sensação de que não me conhecia. Sabia o que eu queria, o que eu gostava, meus medos e desejos. Mas insistia em me olhar do espelho e não saber quem era eu. Na verdade, eu não conseguia era olhar para dentro de mim. E isso me angustiou por anos. Eu buscava incessantemente por mim, e sempre falhava nessa missão.

Então, numa segunda feira qualquer, meu mundo ficou de cabeça pra baixo mais uma vez. Seus gritos foram verdadeiros, minhas lágrimas também. E assim, de repente, da mesma forma que havia começado, acadou. Me vi sozinha em meio a um grande vazio que você deixou na minha vida, um grande vazio que você deixou em mim. Por algum tempo achei que nunca seria capaz de ter sentimentos novamente - eu não conseguia amar, nem odiar; não havia em mim sentimento algum. Apenas o vazio. Demorei bastante para perceber que também não havia um eu

Foi só muitos meses e sessões de terapia depois que eu vim entender tudo. Quando você entrou na minha vida meu eu estava confuso. Ao invés de me ajudar a fortalecer esse eu, você me fez destrui-lo, e substituir pelo nós. Meus sonhos passaram a ser nossos sonhos. Minha vida, nossa. Meus gostos, desejos, planos, ideologias, medos, tudo deixou de ser meu e se tornou nosso. Matei meu eu para dar espaço ao nós dentro de mim. E então, com uma facada só, você matou o nós. Me vi sem rumo, não tinha mais uma estrutura em que me segurar. Não tinha mais sonhos, planos, desejos, medos. Nada daquilo era mais meu, não fazia sentido ser. Se o nós morreu, tudo o que outrora nos pertencera deveria morrer também. Então finalmente iniciei o processo de ir lá na lixeira, buscar os cacos do eu que um dia joguei fora, e reconstruí-lo. Um eu novinho em folha e que fosse inteiramente meu. Nada nosso. De mais ninguém além de mim mesma. 

Não me sinto mais perdida, finalmente encontrei aquele eu que buscava desde antes de te conhecer, mas ainda não o descobri por completo. Percebi que a jornada infinita de auto-conhecimento é também eterna. E que está tudo bem em, de vez em quando, se sentir perdida. Pois é assim que a gente se procura e, eventualmente, se encontra. De novo e de novo e de novo. E aprendi uma lição, sabe? Da próxima vez que existir um nós, irei abrir apenas as janelas, para que ele entre em mim sem substituir o eu. Não me leve a mal, eu gostava muito do nós. Mas é que preciso gostar ainda mais do eu.

"I don't know if you know who you are until you lose who you are" - Taylor Swift, I knew you were trouble

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