domingo, 10 de maio de 2015

Na fila de espera de um consultório qualquer


Tic tac, tic tac. O tempo passa e eu ainda estou sentada aqui, esperando. Irritante que logo hoje esqueci o fone de ouvido em casa, e a bolsa estava tão pesada que acabei não trazendo nenhum livro pra me tirar do tédio. Tic tac, tic tac. O ponteiro é cruel, se move lentamente. Parece que a cada minuto que passa eu vou ficando mais longe de ser chamada. Me distraio olhando os detalhes do papel de parede. Queria um parecido no meu quarto. E, por alguns minutos, eu esqueço o lugar onde queria estar.
Olho para as pessoas que estão ao meu redor, também sentadas, esperando. Quando percebo, estou me perguntando sobre essa mulher na minha frente. Quem é ela? De onde ela vem? Qual sua história de vida? Por que ela está aqui hoje? Em que ela está pensando? Ou será que é em quem? Essas pessoas não me enganam, foleando revistas, olhando as imagens das páginas sem prestar atenção. Talvez esteja pensando em um amor. Um daqueles avassalador, que ela não consegue tirar da cabeça por um segundo se quer. E a cada minuto se pega pensando no cheiro daquela pessoa, nos olhos, no sorriso...
Não se sinta uma idiota por isso, estranha. Eu também penso a cada instante no sorriso de uma pessoa. A saudade é uma filha da puta, não é? Nos maltrata como se fôssemos crianças indefesas. Talvez sejamos. Eu mais do que você, que aparenta já ter passado dos 30. Mas, mesmo com essa enorme diferença de idade, o amor faz de nós duas menininhas bobas, não é? Daquelas que escrevem o nome do garoto no caderno de matemática, com um monte de coraçõezinhos em volta. Novamente, não se sinta idiota. Esse sentimento é bom, sabia? Amores avassaladores são sempre bons, até os que acabam mal. O importante é viver isso pelo menos uma vez na vida.
Acho que você percebeu que eu estava te observando, não foi estranha? Pois me olhou por cima dos óculos. Abaixei a cabeça e fingi prestar atenção no meu tênis por causa da minha estúpida timidez, mas o que eu queria fazer mesmo era sorrir e dizer olá, perguntar quem é você e descobrir qual a sua história, qual foi o seu amor avassalador. E, se o tempo de espera permitir, contar um pouquinho do meu também. Tic tac, tic tac. Ah, o ponteiro é mesmo cruel!

- Senhora Anna? A doutora lhe aguarda na sala 02.