sábado, 9 de julho de 2011

Desabafo.

Finalmente eu estou de férias. Desde o primeiro dia de aula eu estou esperando minhas férias chegaram. Este é meu último ano no colégio. Ano passado eu achava um saco ter que passar meu último ano no Diocesano. Eu queria estar no Amparo... Tipo, estudei lá por 5 anos, lá era minha casa, e as pessoas de lá se tornaram minha família. Eu não imaginei de forma alguma que meu terceiro ano seria emocionante se fosse aqui no Diocesano, ao lado de pessoas que eu conheço há pouco mais de um ano e não há minha vida inteira como Stéphanie, Jéssica, Karol, Victor, Paulo, Layne... Mas o inesperado aconteceu. De repente é como se as pessoas que eu conheci a pouco mais de um ano se tornassem a minha vida, e não apenas uma parte dela. Eu realmente não esperava me apaixonar por esse colégio, pelas pessoas daqui... Mas aconteceu. Estou então vivendo o ano mais difícil da minha vida. Pressões por todo o lado, e quando o vestibular não atormenta minha cabeça, o que atormenta é a idéia de que logo mais eu terei que dizer adeus a essas pessoas que tornaram minha vida tão especial. Eu passei este primeiro semestre ansiando tanto estas férias que não conseguia pensar em mais nada, apenas em ter um tempo pra mim, pra relaxar e fazer o que eu gosto... ficar na internet, escrever minhas webs, ler, ouvir música e assistir séries o dia inteiro. Então hoje é meu primeiro dia de férias, e eu fui ao shopping com Nayla, Jéssica e David (Clarissa e Erickson acabaram aparecendo lá também e foi ótimo). Eu e David tivemos que ir levar Jéssica em casa e Nayla na loja do namorado da mãe dela. Depois eu fui com David até a casa dele que é perto da minha parada de ônibus e nós fomos conversando sobre as férias e que só iríamos nos ver agora em agosto. Puta que pariu, agosto. Um mês inteiro longe deles. De repente eu percebi que não ia mais ter David pra me dizer “Adeus” todos os dias, ou Nayla pra sorrir pra mim e dizer “Oi Anenha”, ou até mesmo Jéssica pra eu guardar o lugar dela e ela acabar faltando aula. Percebi quanto eu ia sentir saudade de Gustavo dizendo “Cassie”, Anna desenhando cortes nos seus pulsos e vestidos vermelhos para a formatura. De Isabella chorando ao falar em Glee, Harry Potter, Crepúsculo, Dulce ou qualquer coisa que a deixe empolgada. Percebi também a falta que vou sentir dos foras de Caíque e de assistir filme na casa de Louise. Porra, vou sentir saudades até de puxar o cabelo de Arthur Rodrigues! (E não fico nada contente em colocar o nome dele aqui dizendo que sentirei saudades)
E o pior de tudo... Depois de pensar quanta falta eu vou sentir de todos eles por um mês, eu parei pra pensar da falta que eu vou sentir de cada um deles a minha vida inteira. Daqui a seis meses têm férias de novo, mas dessa vez são férias permanentes do colégio. São férias eternas. Claro que tudo continua na faculdade, mas vai ser diferente porque eu não terei eles comigo. Fico com tanto medo por não saber o que será de nós ano que vem. Cada um vai seguir seu caminho, fazer sua faculdade, alguns vão se mudar pra morar em outra cidade (como eu)... Talvez nós mantenhamos contato e tudo permaneça igual, mas talvez com o passar o tempo o contato vá se perdendo e a gente se afastando. Acho que eu nunca tinha parado pra pensar na dor que será não ver eles todos os dias ano que vem. Pela primeira vez eu estou começando a me fazer perguntas sobre o futuro, e estou com muito, muito medo deles não estarem mais presentes em minha vida nesse futuro que a cada dia fica mais perto. Isso é tão injusto... tivemos tão pouco tempo para aproveitar a amizade um do outro. Mesmo assim sinto como se os conhecessem a vida inteira. Estou agora trancada em meu quarto, ouvindo músicas depressivas, chorando e rezando, pedindo a Deus que não tire essas pessoas tão especiais de perto de mim. No reencontro do circo, Hingride começou a chorar e falar no microfone que a cada coisinha simples que acontece no dia-a-dia ela pensa “depois desse ano nunca mais eu vou ver isso de novo” e começa a chorar. Quando a vi falar isso a achei muito emotiva e um pouco idiota. Eu não entendia pra quê tanto drama antecipado. Mas acho que a idéia de ficar um mês inteiro longe deles me fez perceber que daqui a pouco tempo iremos nos afastar de novo, e não por um mês mas pelo tempo que a vida determinar. Como eu posso ter vindo perceber isso só agora? Que droga, perdi tanto tempo desse ano me preocupando com a merda do vestibular quando eu podia estar valorizando mais cada sorriso que eu recebo dos meus amigos, cada abraço e cada coisa engraçada que eles falam. Cada filme que assistimos juntos, ou cada vez que eles riem quando eu começo a dançar. Eu deveria ter aproveitado mais cada segundo ao lado dessas pessoas. Estou tão arrependida de não ter percebido isso antes. A crise do terceiro ano demorou para me pegar, mas acho que agora que ela chegou... não vai mais embora. Bom, então eu acho que como não posso parar o tempo ou voltar nele para viver mais intensamente cada momento desse meu último ano... vou aproveitar o resto dele. Estes dias estávamos na casa de Louise conversando sobre o melhor ano de nossa vida, e eu muito convicta disse que o meu melhor ano foi a 8ª série. Eu não estava mentindo, realmente foi o melhor. Mas agora eu percebo... minha 8ª série me marcou tanto que eu coloquei na minha cabeça que ela era a melhor e acabei não dando oportunidade aos outros anos de se tornarem os melhores. Decidi mudar isto agora. Ainda há tempo de transformar meu último ano no melhor da minha vida, e é isso que eu vou fazer. Pra daqui há alguns anos eu olhar pra trás e me lembrar de cada momento que eu tive com meus amigos e não ficar sofrendo imaginando “Poxa, eu podia ter aproveitado mais” ou a famosa frase que sempre nos cai bem “eu era feliz e não sabia’”. Pois agora eu pretendo saber que sou feliz, pretendo aproveitar CADA SEGUNDO que eu tenho ao lado deles, como se realmente fosse o último, com o gostinho de último... Porque na realidade eles são sim os últimos. Os últimos. Pensei que esse ano nunca chegaria. É tão difícil imaginar como minha vida mudará ano que vem... estou assustada. Estou assustada desde o revellion, quando eu vi o relógio marcar 00:00 e eu me dar conta de que havia acabado de começar o meu último ano no colégio, o ano do meu vestibular, o ano mais importante da minha vida, que vai definir como tudo será daqui pra frente. Talvez o último ano que eu terei ao lado deles... Ou talvez apenas mais um de muitos. Quem vai saber o que o futuro nos reserva? Quantos reencontros vamos fazer futuramente?
Ninguém sabe. Eu não vou dar garantias de que quanto todo este sonho acabar tudo vai continuar igual e nós seremos amigos para sempre... Mas também não vou dizer que isto é impossível e não vai acontecer. Vou apenas dizer que a vida vai se encarregar disso, e o melhor é eu não me preocupar agora com o ano que vem, e sim viver estes últimos seis meses que me restam. Vivê-los intensamente, ao lado das pessoas que eu mais quero estar neste momento.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Negrinha - Monteiro Lobato

Eu tava estudando pra prova de Literatura que vou ter amanhã. O assunto é pré-modernismo. Tem falando sobre os principais autores e ao lado tem trechos de algumas obras. Na parte que falava em Monteiro Lobato, eu esperava ver um trecho do sítio do pipa-pau amarelo, mas ao invés disso encontrei este texto intitulado Negrinha. Fiquei realmente chocada em ver escrito uma coisa que certamente deve ter acontecido milhões de vezes e ninguém nunca deu atenção pra isso. Até chorei e nem consegui estudar mais depois, fiquei apenas refletindo sobre a humanidade. Trago aqui este conto para que vocês possam refletir junto comigo.


Negrinha


Monteiro Lobato

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.
Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.
Ótima, a dona Inácia.
Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:
— Quem é a peste que está chorando aí?
Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.
— Cale a boca, diabo!
No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer...
Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.
— Sentadinha aí, e bico, hein?
Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.
— Braços cruzados, já, diabo!
Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.
Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.
Que idéia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida — nem esse de personalizar a peste...
O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta...
A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”...
O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:
— Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!...
Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor!
Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.
Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta — atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.
— “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar o caso à patroa.
Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.
— Eu curo ela! — disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.
— Traga um ovo.
Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:
— Venha cá!
Negrinha aproximou-se.
— Abra a boca!
Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:
— Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?
E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.
— Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida... Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira me dá!
— A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora —murmurou o padre.
— Sim, mas cansa...
— Quem dá aos pobres empresta a Deus.
A boa senhora suspirou resignadamente.
— Inda é o que vale...
Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.
Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.
Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também... Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.
Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”?
Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral —sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos — a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.
— Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa.
— Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus... Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora.
— Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco.
Chegaram as malas e logo:
— Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas.
Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.
Que maravilha! Um cavalo de pau!... Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais... Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos... que falava “mamã”... que dormia...
Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.
— É feita?... — perguntou, extasiada.
E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.
As meninas admiraram-se daquilo.
— Nunca viu boneca?
— Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?
Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.
— Como é boba! — disseram. — E você como se chama?
— Negrinha.
As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:
— Pegue!
Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente... era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.
Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.
Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.
Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:
— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?
Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.
Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha...
Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.
Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!
Assim foi — e essa consciência a matou.
Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.
Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.
Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.
Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.
Brincara ao sol, no jardim. Brincara!... Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.
Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos... E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada.
Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta. Mas, imóvel, sem rufar as asas.
Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou...
E tudo se esvaiu em trevas.
Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados...
E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.
— “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”
Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.
— “Como era boa para um cocre!...”

sábado, 4 de junho de 2011

2 anos.


04 de Junho de 2009, Christopher iluminou o mundo por uma noite e fez a estrela voltar a brilhar.



Hoje faz dois anos que Christopher esteve aqui realizando nossos sonhos *-*
É tanta emoção que até hoje eu ainda não sei como descrever aquele momento.
Apenas uma coisa me vem a cabeça quando lembro deste dia: MELHOR DIA DA MINHA VIDA!
Obrigada Christopher por existir e por tornar meus sonhos realidade! EU TE AMO 


sábado, 7 de maio de 2011

Eu queria poder não sentir tanta saudade

Eu queria poder não sentir tanta saudade.
Queria poder olhar tua foto sem sentir um aperto no coração e aquela vontade insaciável de te ver, de te abraçar. Queria sentir seu corpo no meu de novo. Seus lábios se apossando dos meus. Queria poder ouvir nossa música sem chorar de saudade. Queria ouvir sua voz todas as noites no meu ouvido, e não no telefone.
Maldita essa distância que nos separa. Quilômetros que insistem em ficar entre nossos corações. Mas uma coisa eu te digo: Eles não são mais fortes que nosso amor.
2 anos e 9 meses. Já passamos por tanta coisa juntos, porque agora iríamos permitir que míseros 50 quilômetros destruam toda nossa história? Nosso amor é mais forte que isso. Eu sei, você sabe. Todos sabem. Então o que estamos esperando? Vamos parar de pensar e apenas viver. Aproveitar cada segundo que temos juntos, mesmo que raro, para que cada momento seja único e eterno.


iloveyou 

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Internacionalização da Amazônia

Oi, eu sei que faz muito tempo que eu não venho aqui e tudo o mais, mas hoje eu li um texto ESPETACULAR, e eu não podia deixar de postá-lo aqui.
Passei certo momento da tarde em um debate com André (Allex), bibliotecário do meu colégio, e mais alguns colegas, falando sobre os EUA, a economia mundial, socialismo e capitalismo, globalização, acabamos tocando no assunto da intern acionalização da amazônia, e André me mostrou este texto que me deixou boquiaberta e com vontade de aplaudir esse gênio brasileiro chamado Cristovão Buarque.
Não consigo acreditar como os brasileiros são ignorantes ao ponto de não dar valor a uma pessoa com as idéias que esse homem tem e que provavelmente seriam a solução para o Brasil.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

BLOG DESATIVADO.

É, denovo.
Dessa vez é porque eu vou me mudar e passar um tempo sem internet.
Agora vou morar em Caruaru.

:*