domingo, 23 de julho de 2017

Um passaporte, uma mala, uma almofada de pescoço


Sentindo o estômago embrulhar de ansiedade, ela ia anotando em sua lista as coisas que ainda precisava comprar para levar na viagem. Antialérgico, analgésico, álcool gel, condicionador, luvas e meias. Por um momento pensou em escrever "almofada para pescoço". O lápis ficou parado em cima do papel por alguns segundos enquanto ela decidia se escrevia ou não. Sempre foi seu desejo ter uma almofada daquelas, entretanto, nas poucas vezes na vida que ela teve a oportunidade de viajar, sempre descartava a vontade de comprar porque considerava não tão necessário assim. A almofada daria mais conforto, porém, não dava pra morrer se não a tivesse. Pensando que o dinheiro seria mais útil na viagem em si, ela sempre escolhia poupar, deixar este desejo para um futuro próximo, que nunca chegava.

Incapaz de decidir se escrevia ou não a almofada na lista, se deixou distrair por sua mãe que entrara no quarto perguntando se ela lembrou de separar a bota para por na mala. Ela respondeu que sim. Ainda faltava uma semana para a viagem, mas a ansiedade já a corroía. Fazia meses que estava planejando este momento. Então ela olhou o relógio casualmente e deu um pulo da cama, pois percebeu que estava atrasada. Tinha marcado de encontrar um antigo amigo, muito querido. Há quase dez anos eles se conheceram pela internet, mas nunca pessoalmente, pois moravam em estados diferentes. Naquele dia, pela primeira vez, o amigo estava em sua cidade e eles finalmente iam poder se abraçar e passar algumas horas juntos. 

Ela tomou um banho rápido e pegou o próximo ônibus que a levou até o local marcado, a praia.
Deram um abraço apertado e demorado. Entre sorrisos começaram a caminhar pela beira mar enquanto conversavam, e seu amigo lhe contava as aventuras de suas inúmeras viagens: Paris, Roma, Egito, Taiwan... tantos lugares, tantas histórias. A cada relato os olhos dela brilhavam mais.

- Sabe, viajar pra mim é muito mais que um sonho. É um plano para o futuro - Ela disse, mais para si mesma que para seu amigo.
- Por que futuro? - ele perguntou. - Por que você não começa a viver isso agora?
- Bem queria, mas não tenho recursos financeiros - respondeu. - No entanto, quando concluir meus estudos e começar a trabalhar, ganhar meu próprio dinheiro, viajar será minha prioridade. E escreva o que eu digo: vou conhecer todas as capitais do Brasil e rodar o mundo.


O amigo aplaudiu seus planos e determinação, e os reforçou contando sobre como viajar causa transformações na vida e no ser. Ela guardou aquilo, não no pensamento, mas no coração. Depois de uma tarde gostosa de conversas e risadas, ela levou o amigo ao aeroporto e se despediram. De lá ela pegou um metrô até o shopping mais próximo. Inspirada pelo amigo e decidida, comprou a tal almofada de pescoço. Uma muito bonita, como sempre havia desejado; pink com estampa floral, que custou bem menos do que ela esperava. Enquanto caminhava pelo shopping, sempre que olhava para a sacola na mão e a via dentro, ela era inundada de felicidade. Se sentiu boba por ter ficado tão feliz ao comprar algo tão simples e barato, mas depois de sentir tal euforia diversas vezes ela então compreendeu: a felicidade não estava ali por causa da almofada, mas por tudo o que ela representava.

Viajar, para ela, não era coisa de se fazer nas férias ou feriados, uma vez ao ano. Não era um descanso, uma aventura tampouco. Era um estilo de vida. E depois de tanto sonhar, decidiu adotar este estilo como seu. Não comprou, portanto, a almofada para esta viagem específica que ela faria em sete dias. Comprou para todas as outras que viriam pela frente. Comprou não na esperança, mas na certeza de que essas viagens não se demorariam. Pensou então que, se pretendia seguir a profissão de viajante, precisaria ter os instrumentos de trabalho necessários: um passaporte, uma mala, uma almofada de pescoço, um mapa, fones de ouvido e determinação. Além, é claro, da coragem e ousadia que se é necessária para viver seus próprios sonhos.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Promessas e mudanças


Certa vez, durante a adolescência, falei "eu nunca vou trocar minhas amigas por um namorado". Até que conheci um amor avassalador, desses que nos faz mergulhar de cabeça sem olhar pra trás, sem nem perceber o que estamos abrindo mão nas nossas vidas. Quando me dei conta, eu estava inventando mentiras para minhas melhores amigas, de que estava doente ou estava ocupada, para não precisar diminuir a quantidade de horas do fim de semana ao lado do meu namorado a fim de encontrar com elas. Cada vez que eu fazia isso a consciência ficava pesada e eu me sentia muito mal, sabia que além de estar traindo a elas eu estava traindo a mim mesma e minhas crenças e promessas. Mas, naquele momento, era aquilo que eu queria viver, então segui em frente. Esse mesmo amor avassalador me fez quebrar outra promessa que fiz a mim mesma na adolescência, que foi a de nunca achar que minha vida perdeu o sentido porque o meu namoro acabou. Foi bem difícil e eu precisei de vários meses de terapia para me recuperar e voltar a enxergar um sentido para o viver. Respirei fundo. Passou.

Hoje um dos meus melhores amigos disse acreditar que quando eu começar a namorar de novo nossa relação irá mudar. Eu respondi que não quero que isso aconteça, e que me esforçarei muito para continuarmos tão amigos e íntimos como somos hoje. Ele então prometeu que se fosse ele que começasse a namorar, nada mudaria. Eu não consegui prometer. Minha memória foi direto para o dia em que eu estava no quarto das minhas melhores amigas, num domingo a tarde de 2009 ou 2010, e prometi que nunca trocaria elas por nenhum namorado. O coração apertou. Não sou de fazer promessas vazias. Quebrar minha palavra é algo que me machuca e me persegue pro resto da vida. Eu só consigo prometer algo que eu tenha certeza que conseguirei cumprir, e se aprendi algo com o relacionamento passado, foi que não posso prometer não mudar por um relacionamento.

Acredito - e sempre defendi isso - que o ser humano é altamente mutável. Estamos mudando todos os dias, o tempo inteiro. A Anna de hoje é totalmente diferente da Anna de 2009 que fez aquelas promessas. E essas mudanças são produzidas pelas situações que vivemos, e pelas pessoas que encontramos e deixamos de encontrar na vida. Meu amigo perguntou se eu não conseguia prometer porque tinha medo de acabar mudando pelo meu namorado, por mim, ou por estar namorando. Respondi que talvez por um pouco de cada coisa, ou quem sabe por nada disso. Pessoas mudam quando estão em um relacionamento, e isso é inevitável, impossível de controlar. É, inclusive, uma das coisas mais bonitas que vejo num relacionamento. Duas pessoas que se encontram e vão mudando, se adaptando ao outro, para evoluírem juntos como pessoas. 

Não quero que as coisas mudem entre nós, amigo. Mas pode ser que um dia elas simplesmente mudem. Ou, talvez um dia eu deseje que elas mudem. Ou você deseje. A única coisa que posso prometer no momento é que no que depender de mim, irei fazer tudo o que for possível para manter nosso laço tão estreito quanto tem sido nos últimos tempos.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Intensidade



Meu amor é intenso e o seu regrado.
Acredito ser merecedora de um pouco mais que sua dose diária de atenção.
Talvez eu deseje mais do que você possa me dar, 
Mas acontece que eu não consigo me dar pouco, me dar às vezes. 
Entenda, minha constância é a intensidade. 
Culpe minha vênus em câncer, mas compreenda minha necessidade de mais. 
De troca de fluidos mas também de sentimentos, 
De falar, de ouvir, de estar junto, de me sentir junto. 
Se você não quer minha intensidade, então, por favor, não me queira. 
Porque me pedir para ser menos é me roubar de mim mesma. 
E não quero isso.
Eu sou muito, e eu sou minha. 
Então te peço: seja muito comigo, ou não seja meu.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Namoro


Não digo que não,
mas também não digo que sim
Se pudesse explicar o que sinto
Se pudesse dizer que estou morrendo
e que não aguento mais
Não sabe o quanto te amo mas, às vezes,
é mais forte o medo, é a sombra em você
que me impede de seguir e me confunde
ao estar ao seu lado
Diga que me ama como eu te amo
Diga que não haverá mais problemas
Diga como é que posso, diga como é que reparo
Este sentimento que me traz rodando,
Não tem pressa, eu já sei
Um dia vou saber, não sei o que
há com você, mas eu me apaixonei...
É o seu jeito de ser ou sua forma de olhar
Ou será que mata com seu sorriso?
É a marca dos seus beijos que me levam ao céu
É você quem me faz ficar nervosa
É você quem não me deixa pensar,
quem, sem querer,
alterou as batidas do meu coração...
É que eu ainda não tinha vivido
o que você me fez sentir
Não sei o que vai acontecer
mas não posso mais suportar...
Essa espera me mata,
não sei se devo me deter ou não parar
Se o que você sente é de verdade,
Não me deixe desistir

Dulce María - Dulce Amargo

sábado, 7 de maio de 2016

O que queremos do nós?


Meu terapeuta sempre me pergunta o que eu sinto por você, como eu me sinto em relação a você, e minha resposta é sempre "não sei". Meus sentimentos sempre foram confusos, mas quando envolvem você a coisa se intensifica muito - a ponto de eu nunca conseguir entender ou distinguir o que sinto. Dar nome ao que tá apertando meu peito.

Naquele dia que eu te confessei que havia me apaixonado por você senti que estava tirando um enorme peso das costas. Que, depois de ser sincera com você e comigo mesma, seguir em frente seria mais fácil. Mas é tão difícil desapegar e afastar do coração esses sentimentos confusos quando você mesmo faz questão de ficar trazendo eles de volta.

Você cobra carinho, cobra atenção. Sente ciúme. Diz que quer apenas minha amizade. Faz showzinho quando me vê flertando com alguém. Vem me contar dos seus casos com outras. Quando eu falo de como meu ex me deixou com o coração partido, fico no vácuo. Depois ainda tenho que escutar que você é o único que "se esforça" para fazer essa amizade dar certo.

Me desculpa, mas pra mim isso não parece amizade. Isso é um relacionamento confuso e conturbado de duas pessoas que se gostam muito, mas não é amizade. Suas cobranças, minhas cobranças, não são simples cobranças de amigos. Sempre que conto nossas discussões pra algum amigo ou amiga escuto um "eu não entendo o que ele quer de você". Respondo que também não entendo. Acho que preciso criar coragem de te perguntar, afinal, o que é que você quer de mim. Mas, antes, preciso me perguntar o que eu quero de você.

Sempre achei que queria sua amizade, que estava lutando por isso, mas uma amiga me falou num momento de sofrimento "Você gosta dele! Você não quer só a amizade dele. Continuar nesse joguinho é dar um tiro no pé". Meu primeiro impulso foi contradizê-la, afinal, já tenho em meu computador uma pasta chamada "textões" com alguns modelos prontos sobre a temática "porque eu não consigo abrir mão da amizade dele". Sim, vários argumentos bem elaborados inclusive. Mas ai eu parei pra pensar... Sabe que faz sentido? Tudo isso que ela disse, faz sentido sim. Sempre neguei essa possibilidade a mim mesma, mas ouvir dela me fez ter um insight.

Não sei exatamente o que eu quero de você. Sei apenas que eu quero você. Não necessariamente dessa forma que você está pensando. Eu quero você na minha vida, quero você perto de mim. Quero rir com você, trocar textão com você, te falar dos meus problemas e receber suas palavras de conforto e ajuda. Quero dançar cumbia com você, te abraçar, ouvir tua risada. Quero saber de você, dos seus problemas, te ajudar. Quero me sentir íntima de você. Saber seus segredos, seus sentimentos, suas alegrias, tristezas e aperreios do dia-a-dia. Quero receber memes seguidos de "bom dia, e uma semana linda pra você". Sim, quero tudo isso que já temos. Todavia, ainda não consigo identificar se eu querer tudo isso faz eu querer você como amigo ou como homem. Se a gente vai se beijar ou não acho que não importa muito, afinal. Um envolvimento físico seria legal sim, mas nada supera nosso envolvimento emocional. A pergunta é: tem como existir uma coisa sem a outra? Estamos aptos a conseguir isso? Ou devemos desistir?

Mas, então, preciso saber: o que você quer de mim? Aliás, você já parou para pensar o que é que você quer de mim? Perde uns minutinhos aí pensando! Se resolve, que isso facilita nossa vida. Mas seja sincero, não comigo mas com você mesmo. Porque a sensação que eu sempre tenho é de que você tem sentimentos por mim, sentimentos que vão além da amizade. Mas você não se permite isso, não assume para você mesmo essa verdade. Tenta enganar não só a você mas a mim também. E isso não tá dando mais, sabe? Ta causando sofrimento em nós dois. Te adoro, mas, de fato, não dá pra continuarmos assim. Temos que decidir, por fim, o que queremos do nós.